Se vieram enganados pelo título e estão a pensar que vou dissertar aqui sobre algum tema de natureza badalhoca
(ai essas cabecinhas...), podem já parar de ler. Vá, não digam que não sou amiga.
Há pessoas que têm problemas com agulhas. Era o caso da senhora que chegou hoje, antes de mim, ao laboratório de análises clínicas. Já entradota na idade (
shiu, eu sei que não vou para nova, mas aquela já me levava um bom avanço), toda ela tremia enquanto entregava a requisição. "Ai, sabe, isto já tem um ano, eu não gosto nada de tirar sangue, depois só me lembro quando preciso de ir à médica novamente". A voz a falhar, o papel a tremelicar nas mãos, a resignação enquanto a técnica dizia "tenha calma, não vale a pena estar assim, a senhora tem aqui umas veias que são uma maravilha, não custa nada... pronto, já está!" E lá saiu ela, branca como a cal da parede, quase muda, passito apressado na ânsia de fugir dali.
Entro eu. Calma e serena, respondo ao sorriso da técnica com o meu próprio. Conversa de circunstância, ela tão calma e profissional. Fiel à minha história, sento-me e arregaço as duas mangas, expondo os dois braços. O sorriso dá lugar a uma ligeira expressão de interrogação. Respondo calmamente "deixo-a escolher". E começa o mesmo baile de sempre. Coloca garrote num braço, apalpa, franze o sobrolho, tira garrote, coloca no outro braço, apalpa, franze ainda mais o sobrolho. Por esta hora o sorriso já vai a milhas e começa a notar-se um ligeiro tremor. "Estas veias...".
Sim, as minhas veias. Já lhes chamaram muita coisa. "Fios de cabelo" e "bailarinas". Engraçado, combinam com a dona. Já lhes fizeram muita coisa também. Já mas colapsaram. Já mas atravessaram de um lado ao outro. Já as perderam a meio da colheita, obrigando a várias reviravoltas com a agulha para as voltar a encontrar. Já me deixaram braços completamente negros. Já tremeram e suaram durante o procedimento. Já foram buscar agulhas pediátricas. Uma boa colheita, para mim, traduz-se em sair de lá sem hematomas e apenas com uma marca de picada, mesmo que acompanhada pela forte dor no braço, que nunca ninguém conseguiu evitar.
Gostava muito de ser dadora de sangue. Mesmo. Só que não tenho o peso mínimo exigido. Até pode ser que, um dia destes, com algum jeitinho
(e uma feijoada na véspera), consiga enganar o pessoal. Tirando isso, a minha dúvida consiste apenas no tipo de ataques que vou provocar nos técnicos ou nas horas que demorará a encher um simples saquinho, já que "baixo débito" é outro dos mimos que usam para descrever o meu sistema venoso. Nome por nome, mimo por mimo, sempre prefiro que me digam que tenho veia (de) bailarina. É que esse, pelo menos, eu posso encarar como um elogio.